Corredor na trilha da CCC, com o maciço do Mont Blanc ao fundo

CCC | Courmayeur Champex Chamonix

Itália, Suíça e França | 100 quilômetros e 6.100 metros de subida

A prova que eu não posso simplesmente comprar

Você não compra uma inscrição para a CCC.

Não existe pagar mais caro e garantir sua vaga. Existe uma fila, existe um sistema de acesso construído em cima de anos, e existe um sorteio no final de tudo, onde nenhum treino do mundo te ajuda.

Eu descobri isso lendo o regulamento, e foi um choque.

O Ironman Brasil, que é o Desafio 1 desse projeto, depende quase inteiramente de mim. Eu treino, me inscrevo, pago e eu largo. A CCC Courmayeur–Champex–Chamonix Race é outro nível.

Eu posso estar em forma perfeita, com o dinheiro no bolso e a passagem na mão, e mesmo assim ficar de fora.

Foi por isso que a CCC virou o Desafio 2 e não o primeiro. E é por isso que essa página existe: para mostrar, com o regulamento aberto, o que realmente separa um brasileiro daquela largada em Courmayeur.

O que é a CCC?

CCC é a sigla de Courmayeur Champex Chamonix, os três pontos que formam a rota da famosa ultramaratona em uma das montanhas mais altas da Europa. Ela larga na Itália, atravessa a Suíça e termina na França, tudo isso em volta da bela montanha Mont Blanc.

Acontece sempre na última semana de agosto, dentro da HOKA UTMB Mont-Blanc, que é o maior evento de trail running do planeta. Nasceu em 2006 e era tratada como a "irmãzinha" da UTMB. Hoje ela é uma das provas mais prestigiadas do mundo por mérito próprio.

São cerca de 100 quilômetros, com aproximadamente 6.100 metros positivos de ganho de elevação e uma perda de elevação na mesma ordem de grandeza, descendo pelo caminho todo. A prova atravessa três países, largando em Courmayeur, na Itália, e terminando em Chamonix, na França, depois de passar pela Suíça. O ponto mais alto do percurso é o Grand Col Ferret, a 2.537 metros. A inscrição custa 310 euros, mais 8% de taxa administrativa.

Perfil de altimetria do percurso da CCC
Perfil de altimetria do percurso

O caminho oficial: você larga no centro de Courmayeur, sobe para 2.500 metros de altitude logo nos primeiros quilômetros, encara o Grand Col Ferret e cruza para a Suíça. Passa por La Fouly, Champex e Trient. Entra na França por Vallorcine, sobe até os Vallons des Chezerys e desce para Chamonix.

Nota sobre os dados

Distância, altimetria e percurso variam levemente entre edições. Valores de inscrição, cortes de tempo e lista de material obrigatório são publicados a cada ano. Tudo aqui precisa ser conferido no regulamento oficial da edição vigente antes de qualquer decisão.

Veja o que me espera em Courmayeur

Vídeo oficial HOKA UTMB Mont-Blanc

O número que traduz a CCC para quem corre no Brasil

Distância engana. O que define uma prova de montanha é a densidade de altimetria, que é quantos metros de subida você acumula em cada quilômetro percorrido.

A conta da CCC: 6.100 metros divididos por 100 quilômetros dão 61 metros de subida por quilômetro.

61
m/km

A densidade de subida da CCC. Quase o dobro do que entrega uma ultramaratona brasileira comum, na mesma distância.

CCC61 m/km
Ultra brasileira de 100 km, em geral30 a 40 m/km
Maratona de montanha brasileira, em geral43 a 52 m/km

Ordens de grandeza, que variam por prova e por traçado.

Leia devagar

Existem ultramaratonas de 100 quilômetros no Brasil. A maior parte delas entrega metade da altimetria da CCC na mesma distância. Terminar uma ultra de 100 km aqui não significa estar pronto para a CCC. É outra prova, com o mesmo número no nome.

E tem a outra metade da conta, a que interessa direto ao meu caso.

Se são 6.100 metros de subida numa prova que começa e termina em altitudes parecidas, então são aproximadamente 6.000 metros de descida.

É como descer o Pico da Bandeira, do cume até o nível do mar, duas vezes seguidas.

Pôr do sol visto do Pico da Bandeira, Parque Nacional do Caparaó
Foto: Viajei Bonito

O Pico da Bandeira fica no Parque Nacional do Caparaó, na divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo, e é o terceiro ponto mais alto do Brasil, com 2.892 metros de altitude. Para quem não tem noção de escala de montanha, é a referência de altimetria mais conhecida do país, e é o que dá corpo real ao número de descida da CCC.

As três portas de possíveis entrada para esta prova

Aqui está o que quase ninguém explica direito.

Chegar na CCC é atravessar três difíceis "portas", e elas eliminam gente por motivos completamente diferentes.

Porta 1. Provar experiência

O regulamento é claro:

Regulamento oficial "Por motivos de segurança, os corredores devem comprovar sua experiência antes de se inscreverem nas seguintes corridas: CCC: Índice UTMB válido nas categorias 50K, 100K ou 100M."

O Índice UTMB é uma nota que mede a sua velocidade em provas de trail, calculada a partir dos seus resultados. Ele não é uma prova. Ele é um retrato de quem você é como atleta.

E "válido" tem definição oficial: você precisa ter concluído pelo menos uma corrida nos últimos 24 meses.

Essa porta é a boa notícia do meu projeto, por dois motivos.

Primeiro: não é preciso ter corrido 100 quilômetros. Índice na categoria 50K já cumpre a exigência.

Segundo: o Índice é alimentado por uma rede mundial de organizadores que enviam resultados para a UTMB. Isso significa que ele pode ser construído dentro do Brasil, sem gastos momentâneos com passagem aérea para outros países, fazendo apenas provas que acontecem aqui.

Porta 2. Ganhar o direito de concorrer

Provar experiência dá o direito de se inscrever, mas não dá o direito de correr da tão sonhada CCC | Courmayeur Champex Chamonix.

Para isso existem os Running Stones, que funcionam como "moeda" de acesso. Eles são conquistados concluindo eventos do circuito UTMB World Series, e são usados na hora da inscrição para pesar a sua chance no sorteio.

Aqui está o "problema" brasileiro, e ele é o coração da dificuldade desse projeto.

Índice eu construo no Brasil. Stone, não. Stone só sai de evento do circuito próprio deles, e o Brasil tem pouquíssimos. Um europeu tem dezenas desses eventos e eu tenho quase nenhum, e cada Stone conquistado fora do país significa passagem, hospedagem em moeda forte e uma semana longe de casa. Há uma corrida que conseguimos fazer no Brasil, que é a Paraty Brazil by UTMB®. Finishers nesta prova acumulam as "pedras" (por exemplo, a distância de 108 km dá 3 Stones), o que valida meus requisitos para o sorteio em Chamonix sem sair do país.

Porta 3. O sorteio

E então, depois de tudo, existe o sorteio.

Você pode ter feito tudo certo. Ter o Índice, ter os Stones, ter o dinheiro, ter o corpo pronto, ter atravessado anos construindo cada peça disso. E não ser sorteado. Uma vez, duas, três.

Eu preciso parar aqui e ser honesto sobre o que isso significa pra mim.

Eu passei nove anos aprendendo uma lição só: problema se resolve com preparo. Não importa o tamanho, não importa o cenário. Você treina mais, você estuda mais, você chega mais cedo, você aguenta mais tempo, e o problema cede. Foi assim na corporação e foi assim no hospital, quando um laudo dizia muletas permanentes e eu decidi que ia fazer fisioterapia três vezes por dia até aquele papel (laudo) estar "errado".

Deu certo. Sempre deu certo.

A Porta 3 é a primeira vez na minha vida que eu encontro um obstáculo onde nada disso entra na conta. Não existe treinar mais para ser sorteado. Não existe disciplina que mude o resultado.

Eu vou ter que fazer tudo o que está sob o meu controle, com a mesma intensidade de sempre, e depois esperar. E aceitar que talvez não seja esse ano. Nem o próximo.

Sinceramente, essa é a parte mais difícil dessa prova pra mim. Mais difícil que os 6.000 metros de altimetria.

O que o regulamento diz sobre estar sozinho lá em cima

Tem uma frase no compromisso do corredor que eu li três vezes.

Compromisso do corredor "Cientes de que o papel da organização não é ajudar um corredor a lidar com esses problemas."

Eles escreveram isso. Está no regulamento oficial. A CCC funciona em semiautonomia, e a organização deixa por escrito que você é responsável por si mesmo.

A lista de material obrigatório é conferida, com inspeções organizadas e aleatórias, e a falta de um único item desclassifica. Existe ainda uma lista adicional que a organização ativa conforme a previsão do tempo, anunciada até 24 horas antes da largada. Você viaja com tudo, sem saber o que vai ser exigido.

Caio Passos correndo em trilha de montanha com um helicóptero de resgate sobrevoando

O seguro de resgate é obrigatório, cobrindo busca, salvamento e evacuação nos três países. E eles avisam com todas as letras: o resgate de helicóptero você paga.

Isso não é uma corrida com posto de hidratação a cada cinco quilômetros. É alta montanha, em três países, com clima que vira em minutos, e um regulamento que trata você como adulto.

O meu pé nessa história

Eu tenho aproximadamente 30% da mobilidade do pé direito. Duas cirurgias de reconstrução e uma recuperação feita de fisioterapia, exercício específico e o principal, muita fé. A história completa está na página Sobre.

Agora, sem drama: lembra dos 6.000 metros desta prova?

A CCC, no meu caso específico, é uma prova de descida com uma subida no meio do caminho.

Descer em terreno técnico cobra três coisas do tornozelo ao mesmo tempo.

Amplitude. O movimento de puxar o pé para cima é o que controla a aterrissagem de cada passada. Com amplitude reduzida, o pé chega ao chão em posição pior, e o impacto que ele não absorve vai para joelho, quadril e coluna.

Carga excêntrica. Na descida o músculo trabalha alongando, freando o corpo contra a gravidade. É o tipo de contração que mais gera dano muscular, e o dano é cumulativo. Seis mil metros de descida acumulam isso de forma inevitável.

Instabilidade. Cada pedra solta e cada raiz exige uma correção fina e reflexa do tornozelo. Um tornozelo reconstruído tem menos dessa correção.

Some os três e você entende o tamanho do "problema".

O que ninguém fala

Existe uma variável que a maior parte das análises esquece.

A fadiga muda a biomecânica.

A minha pisada no quilômetro 10 e a minha pisada no quilômetro 80 são de "duas pessoas diferentes". Cansado, os padrões de compensação se acentuam, a precisão do apoio cai e a proteção reflexa da articulação diminui.

Boa parte da CCC é percorrida exatamente nesse estado. E uma parte dela é percorrida nesse estado, no escuro, descendo a montanha.

Esse é o problema central do meu projeto. Ele não se resolve com determinação. Ele se resolve com dados, com carga controlada, com acompanhamento profissional e com uma progressão que vai levar o tempo que tiver que levar.

O que o "Brasil não me dá"?

Eu mostrei que a altitude da CCC existe aqui, e que a inclinação também.

Falta uma coisa, e é justamente a que mais me interessa.

Descida única e contínua de mais de mil metros de desnível, encadeada quatro ou cinco vezes dentro da mesma prova, cada uma com as pernas mais destruídas que a anterior.

Eu consigo descidas grandes na Serra Fina e no Caparaó. O que eu não consigo é encadear várias delas, com corte de tempo e com a noite no meio do percurso.

Essa é a lacuna real do projeto, e ela vai ser resolvida de alguma forma, seja com viagem de treino, seja com uma temporada de adaptação, seja com repetição encadeada nas serras que eu tenho. Qual dessas funciona para o meu pé é decisão de treinador, e é uma das peças que ainda faltam.

O que ainda está sendo montado

Esse projeto está em construção, e eu prefiro mostrar o estágio real dele.

Índice UTMB válido

Preciso de uma prova de categoria 50K ou superior, de um organizador da rede UTMB, para reabrir a janela dos 24 meses.

Treinador

Sem periodização profissional não existe resposta sobre quantidade de altimetria que precisaremos encarar.

Nutricionista esportivo e fisioterapeuta

Acompanhando a carga, com foco em prevenção.

Estrutura financeira

A inscrição são 310 euros, mais 8% de taxa administrativa, mais a contribuição de carbono que passou a ser obrigatória, mais o seguro de resgate. E isso antes da passagem aérea e antes de Chamonix, que na semana da UTMB é um dos lugares mais caros dos Alpes.

Cada uma dessas peças vai aparecer aqui no blog, com os números e as decisões expostos ao longo do caminho.

Três desafios, um só propósito

Eu não sei se eu vou largar a CCC.

Escrevi essa página inteira e não consegui prometer isso em nenhuma linha. Não é por falta de vontade. É porque existe um sorteio que não me "obedece", existe uma conta que ainda não fecha, existe um calendário de anos, e existe uma articulação que precisa ser testada a cada temporada de treino.

O que eu sei é o que eu já vi acontecer.

Eu tinha um laudo médico em mãos. Ele dizia perda severa de movimento, prognóstico ruim, muletas permanentes. Aquele documento estava tecnicamente correto sobre o estado do meu pé. Três meses depois eu larguei a primeira muleta. Aos seis meses, a segunda. Aos doze, terminei 42 quilômetros de montanha.

Nada daquilo estava previsto no papel, e nada daquilo veio de uma capacidade especial que eu tenha e você não tenha.

"O que te limita vem de dentro."

O limite que quase me venceu não estava no tornozelo. Estava na possibilidade de ler aquele laudo, aceitar cada linha dele como sentença definitiva, e organizar o resto da minha vida em volta daquilo. Todo mundo tem um documento desses guardado em algum lugar, e nem sempre ele é médico. Às vezes é financeiro, às vezes é uma frase que alguém falou pra você quando você era criança e que você carrega até hoje sem nunca ter conferido se ela é verdadeira.

A montanha, os 100 quilômetros, os 6.100 metros, tudo isso é o instrumento que eu tenho na mão. Deus está no centro disso, e o esporte é a ferramenta que Ele me deu para mostrar às pessoas a capacidade que Ele já colocou dentro delas.

A CCC não começa em Courmayeur. Ela não começa na largada, com dois mil atletas apertados na rua estreita de uma cidade italiana.

Ela começa numa planilha. Numa consulta em que alguém mede em graus quanto o meu tornozelo dobra. Numa inscrição de uma prova aqui no Brasil que ninguém vai lembrar. E numa manhã de "terça", sem ninguém olhando, descendo o mesmo trecho de serra pela oitava vez naquele mês.

Três desafios, um só propósito.

Continue

Esse é o Desafio 2 de 3. Conheça o Ironman Brasil, em Florianópolis, e o Patagonman, o triatlo extremo da Patagônia Chilena.

Os treinos, os números e as decisões desse projeto estão sendo publicados no blog conforme forem acontecendo.

Ironman Full Florianópolis
Desafio 1 de 3

Ironman Brasil

226,2 km de triatlo em Florianópolis

Patagonman, triatlo extremo na Patagônia chilena
Desafio 3 de 3

Patagonman

Triatlo extremo na Patagônia chilena, com natação em água gelada