O que você vai encontrar nesta página
- A primeira oração, ainda no ar, caindo da moto: "O que o Senhor quer me ensinar com isso?"
- A promessa feita sozinho, num quarto de hospital, pra um Deus que ele mal conhecia.
- O quilômetro 30 de uma maratona, quando a fé deixou de ser história dos outros e virou testemunho.
- A parte honesta: os dias de dúvida, raiva e vontade de desistir, que ele decidiu não esconder.
- O batismo, em dezembro de 2023, o dia em que ele cumpriu a parte dele.
Eu conhecia Deus só por ouvir falar
Antes do acidente, a minha fé era do tamanho daquilo que eu conseguia ver.
Eu já tinha sido batizado na igreja católica quando criança. Depois, dentro da vida que eu levava, passei por outros caminhos, mexi com coisas pesadas, andei por lugares que hoje eu não andaria. Eu acreditava que Deus existia. Sabia que Jesus existia. Mas era só isso. Uma informação, não uma relação.
E a minha vida naquele período não ajudava a acreditar em nada. Eu vinha de perdas que tinham me deixado no chão, tinha acabado de sair da Polícia Militar depois de nove anos, tinha fechado duas empresas por causa da pandemia, estava com a cabeça em um lugar muito ruim. Eu olhava pra cima e não entendia nada. Como é que uma pessoa podia estar passando por tudo aquilo?
A minha fé, naquela época, era abalada por tudo o que estava acontecendo. Eu acreditava naquilo que eu via, e não naquilo que eu cria. Eu vivia em função do ter, e não do ser. Se estava faltando, se estava doendo, então Deus estava distante. Era assim que eu enxergava.
Eu não lia a Bíblia. Eu não conseguia enxergar o poder de Deus. Eu tinha uma fé pequena, e nem sabia que era pequena.
Guarde isso, porque é o ponto de partida. Eu não vou contar aqui a história de um homem de fé que passou por uma provação. Vou contar a história de um homem de quase nenhuma fé, que descobriu Deus no pior dia da vida dele.
O primeiro "meu Deus" veio no ar
No dia 26 de agosto de 2022, eu estava voltando de moto de uma reunião. Ouvi uma frenagem forte atrás de mim, olhei no retrovisor e vi um farol. Senti a pancada. E fui lançado de oito metros de altura.
Tem uma coisa sobre aquele instante que eu preciso explicar. Pra quem estava vendo de fora, foi tudo em milésimos de segundo. Pra mim, que estava caindo, o tempo abriu. Eu vi tudo devagar. E foi exatamente ali, no ar, que veio o primeiro "meu Deus" da minha vida que significou algo muito forte.
Eu caí. Achei que tinha morrido. Coloquei a mão dentro do capacete pra ver se estava sangrando pelo ouvido e pela boca. Vi que estava vivo. Ainda nem tinha percebido que o meu pé direito tinha sido arrancado. E a pergunta que saiu de dentro de mim naquele momento não foi "por que eu?".
Foi outra.
Eu não perguntei por que comigo. Eu perguntei o que Ele queria me mostrar. Olhando pra trás, eu entendo que aquela pergunta já era o começo de tudo, mesmo antes de eu ter fé pra sustentá-la.
A conversa no quarto do hospital
Me levaram pro hospital. Fizeram a primeira cirurgia, que foi só pra colocar o pé de volta no lugar, com os ferros, a estrutura externa. O médico foi direto comigo. Disse que a maioria dos ligamentos tinha se rompido, que muitos tinham ficado no asfalto e não havia como reconectar, e que eu ia andar de muletas pro resto da vida. Correr, eu podia esquecer.


Eu olhei pra ele e dei uma risada meio amarela. Falei que ele não me conhecia, que eu era um ex-Ações Especiais e que não ia desistir.
Repare numa coisa, porque ela é muito importante e é honesta: naquele momento, a força que eu tinha era em mim. Não em Deus. Eu acreditava na minha teimosia, na minha história, no que eu já tinha aguentado na vida. Deus ainda era coadjuvante.
Mas no dia seguinte, quando eu acordei da cirurgia, eu estava sozinho no quarto. Minha família inteira é de São Paulo e eu estava em Santa Catarina. Passei muito tempo ali, só. E foi nesse tempo sozinho que eu tive uma conversa com Deus.
Não foi uma oração bonita. Foi uma conversa normal, simples, e eu até fui atrevido. Eu falei mais ou menos assim: Senhor, eu só conheço o Senhor por ouvir falar. Mas eu sei que o Senhor faz milagres. Se o Senhor é Deus mesmo, se tem toda essa força, faça eu voltar a andar sem muletas e faça eu voltar a correr montanha. E se o Senhor fizer isso, eu entrego a minha vida pro Senhor, eu vou falar em Seu nome, e eu vou me batizar.
Foi isso. Uma proposta feita por um homem que ainda não cria, para um Deus que ele mal conhecia.
Deus cumpriu a parte Dele primeiro
Fui transferido pra São Paulo. Fiz a segunda cirurgia, a da reconstrução, e o segundo médico disse exatamente a mesma coisa do primeiro. Muletas pra sempre. Perda severa de movimento. O laudo depois mostraria perda de 70% de mobilidade.
E aí as coisas começaram a acontecer numa velocidade que ninguém conseguia explicar.
Com três meses, eu tirei a primeira muleta. O médico não entendia, porque só pra pensar em tirar uma muleta, o cálculo dele era de no mínimo um ano.
Com seis meses, eu tirei a segunda. Já estava treinando em uma academia, com fisioterapeutas e personal.
Minha mãe, que também é maratonista de montanha, tinha uma fé absurda de que eu voltaria a correr. Ela pegou e me inscreveu numa maratona de montanha de 42 quilômetros, marcada pra um ano exato depois do acidente.
E no dia 26 de agosto de 2023, exatamente um ano depois de ter sido lançado daquela ponte, eu terminei os 42 quilômetros.
Deus tinha cumprido a parte Dele. Ele me fez voltar a andar sem muletas e me fez voltar a correr montanha, as duas coisas que eu tinha pedido. E o mais impressionante é que Ele cumpriu antes de eu ter qualquer fé decente pra oferecer em troca.
No dia 2 de dezembro de 2023, eu me batizei na Lagoinha Alphaville, e entreguei a minha vida a Jesus. Cumpri a minha parte.
As fotos reais desse dia e da recuperação estão documentadas aqui.
Ver Acidente e RecuperaçãoA verdade sobre a minha fé, que eu não vou esconder
Aqui eu preciso ser muito honesto, porque um artigo sobre fé que só mostra o milagre e esconde a dúvida é um artigo mentiroso.
Durante boa parte dessa recuperação, a minha fé continuou pequena.
Teve dia que eu não conseguia fazer o exercício que o fisioterapeuta pedia. Ele falava "dá um passo pra frente" e o meu corpo travava. Teve dia que eu chorei. Teve dia que eu xinguei, fiquei bravo, fiquei destruído por dentro. Eu olhava pra radiografia, olhava pro meu pé costurado, e aquilo dizia que era impossível.
Pensei em desistir muitas vezes. Muitas mesmo. Era muita dor, era pouco dinheiro, era um pé que não se movia e uma perna que ficou encurtada por muito tempo.
E naqueles primeiros meses, há uma verdade dura: o que me segurou de pé nem sempre foi Deus (eu acreditava nisso). Foi a mentalidade que eu tinha construído. Eu venho de anos estudando a mente humana, trabalhei com visualização, e eu usava isso. Fechava os olhos, me via dando o passo, colocava uma música que me movia, e depois de dez minutos daquilo eu conseguia dar o passo junto com o fisioterapeuta.
Naquele momento, eu confesso, eu ainda não via Deus nisso. Eu via a mim mesmo.
A minha fé forte, a de verdade, começou faz pouco tempo. Ela não nasceu pronta no quarto do hospital. Ela foi construída aos poucos, passo por passo, do mesmo jeito que o meu pé foi reconstruído. E hoje eu entendo que aquela força mental que me segurou lá no começo também era Deus, me sustentando por um caminho que eu ainda não sabia reconhecer.
O quilômetro 30
Tem um momento daquela primeira maratona que mudou tudo.
Reflexão
Lá pelo quilômetro 30, eu achei que não ia aguentar. Estava fadigado, exausto, e comecei a acreditar que o meu pé ia ceder, que ia cair de novo. Eu cria nisso.
E aí veio uma voz, uma intuição, alguma coisa que eu não sei explicar direito. E eu peguei e falei: Jesus, vai comigo. Termina essa corrida comigo, um quilômetro por vez. A gente vai chegar junto nessa, e eu tenho certeza que isso vai ser um divisor de águas, pra mim e pro Senhor, porque eu vou falar do Senhor pro resto da minha vida.
Do quilômetro 30 até o 42, foi assim. Um quilômetro por vez. Um passo de cada vez. Juntos.
Quando eu cruzei a linha, eu chorei, minha família chorou. E naquele instante eu parei de ouvir o que Deus tinha feito na vida dos outros, e passei a viver o que Ele estava fazendo na minha. Foi ali que deixou de ser história dos outros e virou o meu testemunho.
O que eu entendo hoje sobre os três desafios
Hoje eu miro em três provas: o Ironman Brasil, a CCC nos Alpes e o Patagonman na Patagônia Chilena. E se eu olhar com os olhos nus, é impossível. Começa pela parte financeira, porque eu não tenho estrutura pra isso. Inscrições caras, equipamentos, treinadores, fisioterapeutas, médicos, uma equipe inteira. Eu não vejo como fazer.
E é exatamente por isso que eu chamo isso de fé.
Fé é acreditar naquilo que a gente não vê, como se já tivesse acontecido. Eu não estou vendo que eu vou fazer. Eu creio que eu vou fazer. E eu vou fazer tudo isso literalmente na fé, mostrando cada passo do processo.
Inclusive vou ser honesto sobre uma falha minha. Eu ainda não marquei data pras provas. E eu sei que isso mostra que a minha fé ainda tem o que crescer, porque quem crê de verdade age como se já tivesse acontecido. Eu sei disso, e eu estou trabalhando nisso. A fé também é um "músculo", e a minha fé ainda está em treinamento.
As pessoas vão olhar e pensar que eu sou forte, que eu sou resiliente. Mas por trás dessa resiliência toda, por trás do ex-Ações Especiais, por trás da mentalidade, tem Deus. Tem Jesus. Não tem o que discutir. A força não é minha. É Dele, passando por mim.
E o que eu busco não é a linha de chegada. A linha de chegada é uma parte pequena de tudo. Eu não vou alcançar ninguém depois de cruzar a linha de chegada. Eu alcanço as pessoas no processo, mostrando as dores, os desafios, as dificuldades do meio do caminho. É igual a montanha, que não me desafia no topo, e sim no percurso, no barranco, na árvore caída, no risco de um acidente. É no processo que aparece o caráter. É no processo que se mostra a fé.
Sobre o medo
Eu não tenho medo de não conseguir.
Se Deus fez todas essas promessas se cumprirem, se Ele me trouxe até aqui e está me permitindo enxergar tudo isso, então Ele vai prover. Eu não estou fazendo nada pra mim, não estou fazendo nada de errado. Eu acredito que isso é pra ajudar outras pessoas, e por isso eu não preciso ter medo do resultado.
Mas isso não quer dizer que fé seja a ausência total de medo. Eu aprendi na Polícia Militar que o medo, em certa dose, preserva. A ausência completa de medo pode te fazer entrar correndo numa viela sem olhar pros lados, e cair em uma cilada. O medo, às vezes, te mantém vivo.
O que não pode é o medo te dominar. Quando ele começa a querer tomar conta, é aí que eu entro em oração. Eu oro, peço pra Deus tirar todo o medo de perto de mim, e declaro em nome de Jesus que aquilo que Ele prometeu já está feito.
Fé, pra mim, não é fingir que o medo não existe. É não deixar ele mandar em mim.
Como se aprende a ouvir a voz de Deus
Tem uma coisa que eu carrego da Polícia que explica melhor do que qualquer outra coisa como funciona a minha relação com Deus hoje.
Um comandante uma vez ensinou que a gente tinha que aprender a reconhecer a voz dele no meio da multidão. Tinham vários comandantes gritando, várias vozes, mas a gente precisava saber ouvir qual era a voz do nosso comandante. E como é que se aprende isso? Com treino. Com contato todos os dias. De tanto ouvir aquela voz no dia a dia, ela se tornava inconfundível no meio do barulho.
Com Deus é igual.
A gente começa a ouvir Deus quando a gente está cada vez mais perto Dele. Ler a Bíblia, estudar, jejuar, orar, isso tudo é o contato diário que treina os ouvidos. É como um relacionamento, que leva tempo pra criar confiança, seja no amor, na amizade ou no trabalho. Deus está sempre presente. Quem se afasta é a gente. E quanto mais perto a gente fica, mais fácil fica reconhecer a voz Dele no meio de todo o barulho da vida.
O que te limita vem de dentro
Essa frase eu construí anos atrás, num período muito turbulento da minha vida, quando eu estava cheio de desafios pessoais e precisei começar a aplicar em mim mesmo alguns aprendizados pra sair do buraco.
Eu me lembro de ter pensado: eu preciso dar passos cada vez mais pra frente, preciso parar de dar passos pra trás. Mas o que é que vai me fazer conseguir isso? E aí eu percebi que o pior de tudo estava dentro da minha própria cabeça.
Passos Sem Limites virou o nome, por causa do meu sobrenome, Passos. E o slogan veio na sequência, quando eu me perguntei o que estava me limitando. Coloquei a mão perto da cabeça e falei: está aqui. O que me limita está aqui dentro.
Eu usei muito essa frase pra voltar a andar, no tempo em que a minha fé ainda não era forte. Porque se eu pensasse que não ia dar certo, o próprio slogan estaria mentindo. Então eu tinha que acreditar que ia dar certo. E se aparecesse algum limite, ele ia estar vindo da minha cabeça, e o que vem da cabeça pode ser reprogramado.
Todo mundo tem um limite desses guardado em algum lugar. Nem sempre ele é físico. Às vezes é financeiro, às vezes é uma crença que a gente carrega há anos sem nunca ter conferido se é verdadeira. E quase sempre ele mora do lado de dentro, não do lado de fora.
O que eu diria pro Caio deitado naquela cama de hospital?
Se eu pudesse voltar e conversar com o Caio que estava no hospital, todo costurado, sem saber se ia andar de novo, eu diria assim.
Caio, eu não sei no que você acredita agora. Mas acredite fielmente que existe um Deus te olhando. Um Deus forte, bom, maravilhoso, que permite que as coisas aconteçam pra te ensinar, pra te fortalecer, e pra fazer de você uma pessoa que vai cumprir uma grande missão, que é falar em nome Dele através do seu testemunho e dos seus desafios.
Seja forte e corajoso, do jeito que Deus falou pra Josué. Não desiste. Você vai sentir dor, você vai se sentir desafiado, mas Deus vai honrar aquilo que você pediu a Ele. Eu tenho certeza.
A mulher que eu já amo sem ter conhecido
Eu quero ser verdadeiro nesse testemunho, então eu vou falar de uma fé que eu carrego pro meu futuro.
Hoje eu não tenho uma esposa. Mas eu acredito, com a mesma fé que me tirou das muletas, que Deus está preparando uma mulher muito especial pra minha vida. Uma mulher pra fechar esse ciclo, pra caminhar comigo pelo resto dos meus dias, uma só, pro resto da vida.
Eu já amo essa mulher sem sequer ter conhecido ela. E eu tenho certeza de que ela vai estar comigo em cada prova, em cada momento, em cada desafio. Isso também é fé. É acreditar, e amar, aquilo que ainda não se vê.
Amor, eu te amo, e eu te espero, pra gente cruzar a linha de chegada juntos.
Se você chegou até aqui
Se você está passando por um momento difícil e chegou até o fim desta página, é isso que eu quero te deixar.
Tenha fé. Seja forte e corajoso. Acredite, porque o seu potencial é muito maior do que você imagina. E tudo aquilo que te limita, tudo aquilo que segura a sua vida, vem de dentro da nossa mente.
E se vem de dentro, você pode mudar.
Deus fez eu voltar a andar quando o papel dizia que era impossível. A corrida, as montanhas, os desafios, tudo isso é só a ferramenta que Ele colocou na minha mão. O propósito é mostrar pra você a capacidade que Ele já colocou dentro de você.
O que te limita vem de dentro. E de dentro também vem a força pra vencer.