Caio Passos em preparação para o Ironman Brasil, em Florianópolis

Ironman Brasil

Florianópolis, Santa Catarina | 226,2 quilômetros

226 quilômetros e um tornozelo reconstruído

Em agosto de 2022 meu pé foi arrancado em um acidente de moto. Os médicos conseguiram recolocar o pé no lugar em duas cirurgias e me devolveram um prognóstico duro: muletas permanentes, perda severa de movimento, e correr estava fora de cogitação. Boa parte dos ligamentos ficaram no asfalto.

Um ano depois eu terminei uma maratona de montanha (42km).

A história completa você pode ver na página "sobre". O que interessa agora é o que veio depois dela.

O Ironman Brasil estava na minha lista muito antes do acidente. Ficou lá, adiado, primeiro pela recuperação e depois pelo dinheiro, que é o inimigo mais silencioso de qualquer projeto esportivo de longa distância. Quando eu cruzei aquela linha de chegada em 2023, com um pé que segundo os laudos não deveria estar "funcionando", o Ironman mudou de "categoria" dentro de mim.

Deus fez a parte Dele antes de ter qualquer resultado para mostrar. Eu pedi para voltar a andar sem muletas e voltar a correr montanhas novamente. Recebi as duas coisas. A partir dali, atravessar esses 226 quilômetros virou compromisso assumido.

Essa página existe para você entender três coisas: o tamanho real dessa prova, o motivo dela ocupar o primeiro lugar entre os três desafios, e o que ela representa dentro do propósito que move tudo isso.

O que é o Ironman Full

O Ironman Full é a distância clássica do triatlo de longa distância. Três modalidades em sequência, sem pausa programada, contra um cronômetro que corre desde o momento em que você entra na água.

Caio Passos, imagem representativa da preparação para o Ironman Brasil
Natação3,8km
Equivale a 76 piscinas olímpicas, feitas em mar aberto, com onda, corrente e centenas de atletas disputando o mesmo espaço
Ciclismo180km
Aproximadamente a distância de São Paulo até Campinas, ida e volta
Corrida42,2km
Uma maratona completa, iniciada depois de tudo acima
Total226,2km
Um dia inteiro de esforço contínuo no limite fisiológico

O tempo limite total é de 17 horas. A largada acontece de manhã, bem cedo, e a linha de chegada encerra por volta da meia-noite. Existem cortes intermediários que eliminam o atleta durante a prova, com prazos definidos para concluir a natação e para encerrar o ciclismo. Quem estoura qualquer um deles sai da prova ali mesmo, independente de estar bem ou mal.

Guarde esse número: 17 horas. Ele volta mais adiante e ele muda completamente a estratégia de quem tem uma limitação física.

17
horas

O tempo limite total do Ironman Full. É a peça central da estratégia para atravessar a prova protegendo o tornozelo do início ao fim.

Sobre os números desta página

As distâncias são oficiais e fixas em qualquer Ironman Full do mundo. Horário de largada, valores exatos dos cortes intermediários, preço de inscrição, número de vagas e detalhes do percurso mudam a cada edição. Tudo que aparece aqui como logística está em caráter aproximado e precisa ser confirmado no regulamento oficial do ano.

Florianópolis

O Ironman Brasil acontece em Florianópolis desde o início dos anos 2000 e se consolidou como a prova mais tradicional da modalidade na América do Sul. Recebe atletas de dezenas de países e distribui vagas para o Campeonato Mundial. A organização é séria e a régua é alta.

O percurso tem características bem definidas:

Natação em mar aberto, na região norte da ilha. Mar aberto significa variável. O mesmo trecho pode estar "liso" em um ano e "revolto" no outro, e você descobre como realmente o mar estará na manhã da prova.

Ciclismo pelas rodovias da ilha e da região continental, um traçado com trechos rápidos e ondulações constantes. Todo atleta que já correu lá cita o mesmo fator: vento. Vento em 180 quilômetros de percurso é um desgaste acumulado que aparece depois, na corrida, que é a última modalidade.

Maratona em circuito de voltas, em traçado plano, sob o calor e a umidade de Santa Catarina.

Sobre esse último ponto eu preciso ser específico, porque terreno plano tem fama injusta de facilidade.

Quando você corre em terreno variado, cada mudança de inclinação recruta músculos diferentes e distribui a carga por estruturas diferentes do corpo. Subida puxa uma cadeia, descida puxa outra, plano puxa uma terceira. Essa variação funciona como um "rodízio": enquanto um grupo muscular trabalha, outro grupo descansa.

Em um traçado plano, esse "rodízio" muscular não acontece. A passada é praticamente idêntica do primeiro ao último quilômetro. As mesmas articulações, os mesmos tendões e os mesmos músculos absorvem o impacto 40 mil vezes seguidas, sem nenhum revezamento.

Para um atleta comum, isso significa desgaste monótono. Para um tornozelo reconstruído como o meu, significa outra coisa, e eu volto nisso mais para frente.

Veja o Ironman Brasil em Florianópolis

Por que o Ironman vem primeiro entre os três desafios?

O projeto tem três provas:

  1. Ironman Brasil, em Florianópolis, com 226 quilômetros de triatlo
  2. Courmayeur Champex Chamonix, conhecida pela sigla CCC, com 101 quilômetros de montanha atravessando Itália, Suíça e França, dentro do circuito do Mont Blanc
  3. Patagonman, triatlo extremo na Patagônia Chilena, com natação em água gelada

A ordem que está no site tem uma lógica de acesso.

A Courmayeur Champex Chamonix não aceita inscrição direta. Para participar é preciso acumular pontos em provas qualificadoras reconhecidas pela organização e depois passar por sorteio. Isso significa que a minha entrada nela não depende apenas de estar preparado. Depende de um calendário de provas construído com antecedência, ao longo de temporadas inteiras, e ainda depende de sorte no sorteio final.

O Ironman Brasil depende de variáveis que estão sob o meu controle: preparo, disciplina, saúde e dinheiro. Sem fila de índice, sem sorteio.

Existe ainda o fator financeiro, que foi o motivo real de eu ter parado em 2023. Provas internacionais multiplicam o custo por passagem aérea, hospedagem em moeda forte, transporte de bicicleta, seguro e taxas. O Ironman Brasil elimina a maior parte dessa conta e viabiliza o começo do projeto.

Uma ressalva que eu faço questão de registrar, porque eu já falei isso de forma "apressada" em algum momento acima. Eu costumava dizer que treinar para o Ironman já seria treinar para a Courmayeur Champex Chamonix. Isso está incompleto. As duas provas compartilham base aeróbica, gestão de esforço prolongado e preparo mental. Elas exigem coisas bem diferentes do corpo. O Ironman pede sustentação de ritmo em superfície previsível. A prova de montanha pede altimetria severa, descida técnica e terreno instável, que é o cenário mais agressivo possível para um tornozelo reconstruído.

Se essas duas preparações vão se somar ou competir entre si, quem responderá será um treinador que tenha o meu histórico clínico na mão.

A ordem também pode mudar. Ela está no site porque é o meu plano com as informações que eu tenho hoje. Se a realidade apresentar um caminho melhor, o plano se ajustará.

O pé direito dentro de cada etapa

Aqui está o que diferencia essa prova para mim.

Qualquer atleta que entra num Ironman enfrenta os mesmos 226 quilômetros. Eu entro neles com um pé direito que foi arrancado, recolocado e reconstruído, e que perdeu uma parte importante da amplitude de movimento original. Ligamentos que um dia ficaram no asfalto e não voltam mais. O que eu recuperei veio de fisioterapias, exercícios específicos e o principal, muita fé.

Cada uma das três etapas cobra desse pé de maneiras diferentes.

Natação

Na água o pé não sustenta peso. Em provas longas, a propulsão vem principalmente dos braços, e as pernas funcionam mais como estabilizador do que como motor.

O ponto de atenção é a rigidez do tornozelo. Um tornozelo com pouca amplitude reduz a eficiência da pernada e, dependendo do grau de restrição, o pé passa a criar arrasto em vez de ajudar. A adaptação passa por trabalho técnico de posicionamento de corpo na água e por aceitar que a minha pernada tem um "teto", um "limite".

Essa é a etapa que menos me penaliza. O objetivo dela é sair da água dentro do tempo de corte e com energia preservada para as modalidades seguintes.

Ilustração da etapa de natação do Ironman Brasil
3,8 kmmenos exigente para o pé

Ciclismo

O ciclismo é a etapa mais longa e a mais "amigável" para quem tem restrição de tornozelo como o meu caso. O pé fica fixo no pedal, o movimento é circular e controlado, e não existe impacto.

Existem soluções técnicas concretas aqui. É onde o bikefit deixa de ser refinamento e vira necessidade: palmilha específica, cunhas de correção, ajuste fino da posição do taco na sapatilha e escolha do comprimento do pedivela, que determina quanta amplitude o tornozelo precisa entregar a cada volta completa.

Cento e oitenta quilômetros representam algo entre 25 e 30 mil pedaladas. Um posicionamento errado por poucos milímetros, repetido 30 mil vezes, produz lesão garantida. O mesmo cálculo funciona ao contrário: um ajuste correto, repetido 30 mil vezes, é o que me entrega inteiro para a próxima etapa.

Ilustração da etapa de ciclismo do Ironman Brasil
180 kma mais amigável ao tornozelo

Corrida

É onde "pode morar o perigo".

Cada passada de corrida aplica no pé entre duas e três vezes o peso do corpo. Uma maratona tem cerca de 40 mil passadas. Um tornozelo com amplitude reduzida absorve pior esse impacto e distribui pior essa carga, então o corpo acaba compensando. A compensação transfere o esforço para joelho, quadril e coluna, e essas estruturas cobram uma "fatura" alta no final.

Some isso ao que eu expliquei sobre o traçado plano de Florianópolis. Sem variação de terreno, não existe o "rodízio" muscular que dá descanso alternado às cadeias musculares. A mesma estrutura comprometida trabalha do quilômetro zero ao 42.

Ilustração da etapa de corrida do Ironman Brasil
42,2 kmonde mora o risco

Agora o número 17 horas volta.

O tempo limite do Ironman é a peça central da minha estratégia. Ele permite construir a prova inteira em torno da proteção do tornozelo: uma boa natação, um ciclismo consistente que me deposite na maratona com as pernas disponíveis, e uma maratona conduzida em blocos alternados de corrida e, se precisar, uma caminhada rápida. Meu alvo em Florianópolis é atravessar a linha dentro do tempo, com o pé que estava previsto para nunca mais voltar a correr.

O que ainda está sendo montado

Esse projeto está em construção, e eu prefiro mostrar o estágio real dele.

O que já existe: uma base de corrida de montanha, uma mentalidade formada em nove anos de Polícia Militar do Estado de São Paulo, boa parte deles sendo um Ações Especiais, e uma maratona de montanha completada um ano depois de um acidente que deveria ter encerrado este assunto.

Estrutura de apoio para a preparação do Ironman Brasil, ainda sendo montada

O que ainda falta:

Treinador

Sem periodização profissional não existe resposta segura sobre volume, sobre a interação entre as duas preparações e sobre quanta carga esse tornozelo suporta por semana.

Nutricionista esportivo

Um Ironman consome algo entre 8 e 10 mil calorias. Essa reposição precisa acontecer em movimento, no calor, com o estômago sob estresse, e depende de um protocolo testado em treino. Além disso, eu passei dos 100 quilos durante os meses deitado, e composição corporal aqui significa proteção articular.

Fisioterapeuta

Acompanhando a carga de treino, com foco em prevenção.

Estrutura financeira

Para inscrição, equipamentos, deslocamentos e para a equipe técnica acima.

Quem acompanha esse blog vai ver cada uma dessas peças entrando no lugar, com os números e as decisões expostas ao longo do caminho.

Três desafios, um só propósito

O que move isso está bem definido na minha cabeça.

Eu tinha um laudo médico em mãos. Ele dizia perda severa de movimento, prognóstico ruim, muletas permanentes. Aquele documento era tecnicamente correto sobre o estado do meu pé. Três meses depois eu larguei a primeira muleta. Aos seis meses, a segunda. Aos doze, terminei 42 quilômetros de montanha.

Nada disso estava previsto no papel, e nada disso veio de uma capacidade especial que eu tenha e as outras pessoas não tenham.

Veio de uma decisão tomada em cima de uma cama de hospital, quando eu conversei com Deus e disse que só O conhecia por ouvir falar. Veio da disciplina que eu aprendi durante nove anos de serviço militar. E veio de uma mãe maratonista fazendo fisioterapia comigo em momentos antes de dormir e depois ao acordar.

"O que te limita vem de dentro."

Essa frase tem endereço concreto. O limite que me venceria não estava no tornozelo. Estava na possibilidade de eu ler aquele laudo, aceitar cada linha dele como sentença definitiva, e organizar o resto da minha vida em volta daquilo. Todo mundo tem um documento desses em algum lugar, e nem sempre ele é médico. Às vezes é financeiro, às vezes é uma frase que alguém falou na sua infância, às vezes é uma crença que você carrega há anos sem nunca ter conferido se ela é verdadeira.

A natação, o ciclismo, a corrida e os 226 quilômetros são o instrumento que eu tenho na mão. Deus está no centro disso, e o esporte é a ferramenta que Ele me deu para mostrar às pessoas a capacidade que Ele já colocou dentro delas.

Três desafios, um só propósito. Se essa história fizer uma pessoa olhar para o próprio "laudo" e desconfiar dele, os 226 quilômetros já cumpriram a função antes mesmo da largada.

Resumo

Continue

Esse é o Desafio 1 de 3. Conheça a Courmayeur Champex Chamonix, com 101 quilômetros de montanha entre Itália, Suíça e França, e o Patagonman, o triatlo extremo da Patagônia Chilena.

Os treinos, os números e as decisões dessa preparação estão sendo publicados no blog conforme forem acontecendo.

Courmayeur Champex Chamonix, circuito UTMB
Desafio 2 de 3

CCC

101 km de montanha entre Itália, Suíça e França

Patagonman, triatlo extremo na Patagônia chilena
Desafio 3 de 3

Patagonman

Triatlo extremo na Patagônia chilena, com natação em água gelada