As mesmas distâncias do Ironman mas Nada a ver com ele.
Se você leu a página do Ironman Brasil, você já conhece os números: 3,8 km de natação, 180 km de bike, 42 km de corrida. O Patagonman tem exatamente as mesmas distâncias.
E não tem nada a ver com o Ironman.
No Ironman você larga da praia de Florianópolis, com sol, arquibancada e milhares de atletas. No Patagonman você salta de uma balsa dentro de um fiorde a 10 graus de temperatura, às cinco da manhã, no extremo sul do mundo, na Patagônia Chilena.
No Ironman a maratona termina numa avenida plana com público gritando, torcendo por você. No Patagonman a corrida são 42 km de asfalto, terra e cascalho em terreno solto, subindo e descendo até o Lago General Carrera, e quem te espera na chegada é a sua equipe e o vento.
Este é o Desafio 3. É a prova mais extrema das três, a mais remota, a mais cara, e por um motivo específico, talvez a mais difícil para o meu pé de todas. E ao mesmo tempo, é a mais fácil de conseguir entrar. Vou explicar cada uma dessas contradições.
O que é um Xtreme Triathlon
O Patagonman faz parte do XTRI World Tour, um circuito mundial de triatlos extremos cujo evento fundador é o Norseman, na Noruega. Fazem parte do circuito provas como Celtman na Escócia, Swissman na Suíça e Alaskaman nos Estados Unidos.
O Patagonman é a etapa sul-americana desse circuito. Não é uma prova local com nome bonito. É o representante de um continente inteiro em um circuito de triatlo extremo mundial.
O que separa um Xtreme de um Ironman comum está em cada detalhe:
Ironman Brasil
226 km no totalLargada da natação na praia, com centenas de atletas, água na temperatura por volta dos 25°.
Os mesmos 180 km em asfalto, com poucas ondulações e algumas subidas e descidas no percurso.
Em asfalto, em meio a torcedores, com pontos de apoio.
Patagonman
226 km no totalLargada dentro do fiorde, com as águas a 10°, com poucos atletas.
Pela sinuosa Carretera Austral, uma pista com muitas elevações, hora asfalto, hora cascalho, sem ponto de apoio.
Pelas montanhas, em trilhas de terra e asfalto, com o clima extremamente desafiador.
Foto: Chile Travel
Ambos com as mesmas distâncias, porém cada um com sua peculiaridade e suas dificuldades. Um tem apoio do começo ao fim, com organização e público. O outro, somente você, Deus e sua equipe de apoio, sem apoio da organização.
Não é para menos que dizem que é tanto uma prova física quanto uma jornada espiritual.
Nota sobre os dados
Veja o Patagonman na Patagônia Chilena
Os números da prova
| Etapa | Dado oficial |
|---|---|
| Natação | 3,8 km no Fiorde de Aysén |
| Ciclismo | 180 km, com quase 2.500 metros de subida |
| Corrida | 42,195 km de terra, trilha e cascalho |
| Total | 225 km |
| Chegada | Puerto Ingeniero Ibáñez, à beira do Lago General Carrera |
| Tempo limite | 17 horas |
Os cortes de tempo, que são o que mais importa para a minha estratégia:
| Ponto | Limite |
|---|---|
| Saída da água | 2 horas |
| Km 90 da bike | 6 horas |
| Saída da transição para a corrida | 11 horas |
| Chegada | 17 horas |
E o clima, que na Patagônia é um "personagem" da prova:
Água tão baixa quanto 10,5 graus. Ar na bike de 4 a 26 graus. Ar na corrida de 4 a 22 graus. Vento forte o ano inteiro. E, nas palavras do próprio manual, você pode ter sol, chuva e neve no mesmo dia.
A água, e por que ela é o meu maior problema de todos
Aqui está a parte que faz do Patagonman, para o meu caso específico, talvez a prova mais difícil das três.
O regulamento é direto:
Regulamento oficial "Nos últimos anos, a temperatura da água no ponto de largada, no dia e horário da prova, ficou entre 10 e 12 graus."
Foto: Explore Chile Tours
Para você ter noção: uma piscina onde eu treino fica em torno de 28 graus. Eu vou nadar 3,8 km em água quase 20 graus mais fria do que o meu corpo conhece. Roupa de neoprene completa é obrigatória. Abaixo de 12 graus, touca de neoprene passa a ser obrigatória também. E o corte de água me dá até 2 horas ali dentro.
Agora o que quase ninguém pararia para pensar, e que é só meu.
O meu pé direito foi arrancado, reimplantado e reconstruído em duas cirurgias. Tecido que passou por um trauma desse tipo costuma ter a circulação alterada. E em água fria, o corpo faz uma coisa automática: ele fecha a circulação das extremidades para proteger o núcleo. As primeiras partes a sofrer são justamente as que já têm circulação comprometida.
O próprio regulamento, sem saber do meu pé, escreve exatamente o meu risco:
Regulamento oficial "É muito perigoso passar muito tempo em água fria, ou pedalar depois de ter passado muito tempo em água gelada."
É por isso que existe o corte de 2 horas. E é por isso que essa é a pergunta central do meu Desafio 3, uma pergunta que não está em nenhum regulamento porque ela é clínica:
Um pé reconstruído, com circulação alterada, aguentaria até duas horas imerso em água de 10 graus e reaquece a tempo de pedalar 180 quilômetros preso num pedal?
Eu ainda não tenho essa resposta. Mas assim como Aquele que me fez voltar a andar sem muletas e voltar a correr, fará eu terminar esta prova mesmo diante de todos os desafios, para dizer que Ele fez, Ele esteve comigo, Ele mais uma vez me conduziu para terminar mais um desafio e falar em Seu nome, Jesus!
A corrida, que é a boa notícia para o meu pé
Se a água é o pior cenário para mim, a corrida é o melhor.
Na página da CCC eu expliquei que 6.000 metros de descida contínua são o que mais castiga um tornozelo reconstruído. O Patagonman não tem isso. A corrida são 42 km de "constant rolling hills", subindo e descendo em ondulações, sem nenhuma descida única e prolongada de mil metros.
Descer é o que mais cobra amplitude e freio do tornozelo. Aqui não existe aquela descida longa. Tanto que o regulamento proíbe bastões na corrida, o que só confirma que o perfil não é de grande descida técnica.
Existe um outro lado, e eu não vou escondê-lo. O terreno é quase todo solto, terra e cascalho sem pavimento, e piso solto exige do tornozelo aquela correção fina e reflexa que é justamente o que eu tenho menos. Então a corrida troca um problema por outro: menos castigo de descida, mais exigência de estabilidade.
É por isso que eu digo que o Patagonman não é a prova fácil para o meu pé. É a prova com outro tipo de dificuldade para o meu pé.
Ninguém faz essa prova sozinho
Essa é a diferença que separa o Patagonman das outras duas provas do projeto.
No Ironman e na CCC, eu vou sozinho. Aqui, é proibido.
O regulamento exige que cada atleta leve a sua própria pessoa de apoio, obrigatória, com carro. Sem ela, você não larga. Essa pessoa te alimenta, te hidrata, carrega sua roupa e suas peças de reposição, e cuida de você nas transições e ao longo da bike.
Não existe transporte da organização para a largada nem para a volta. Não existe posto de comida na estrada. Se você não tiver uma equipe e um carro, você simplesmente não compete.
Isso cria o desafio mais interessante desse projeto, e ele não se resolve com treino. Ele se resolve com relação.
Eu vou precisar de gente disposta a atravessar o mundo comigo, ou de gente que eu conheça por lá. A minha ideia é justamente essa: durante o processo de preparação, fazer amizades na Patagônia, construir apoio local, aprender com quem vive naquele clima. O regulamento até facilita, porque o apoiador só precisa se comunicar em espanhol.
A prova que parece a mais solitária das três, no fim do mundo, é a única que eu não posso fazer sem outras pessoas ao meu lado.
A contradição do acesso
Aqui está a reviravolta que eu não esperava quando comecei a estudar essa prova.
A CCC é quase impossível de entrar. Exige índice, exige Running Stones que só se conseguem na Europa, e ainda por cima um sorteio que a disciplina não abre.
O Patagonman é o contrário. Ele não exige índice, não exige qualificação, não exige experiência prévia comprovada. São 300 vagas por ano, e existem dois caminhos para entrar.
O primeiro é a loteria. Você paga 12 dólares por um bilhete, e é sorteado ou não. Quem tenta e não é sorteado ganha chance dobrada no ano seguinte, triplicada no terceiro, e assim por diante.
O segundo é a inscrição direta por compromisso social. Você pula o sorteio se comprometendo a doar no mínimo 1.000 dólares a uma causa social da região, como o TriAysén, que é o clube de triatlo que leva o esporte para jovens de uma área isolada com uma séria crise de saúde mental. Essa porta depende só de vontade e de dinheiro, e não de sorte.
Ou seja: das três provas do meu projeto, o Patagonman é o único onde a permissão para largar está ao meu alcance direto. O que segura não é o direito de correr. É a logística, é a conta, e é o meu pé na água gelada.
É por isso que essa prova, que eu imaginava como o desafio final, talvez pudesse ser o primeiro.
O que ainda está sendo montado
Esse projeto está em construção, e eu prefiro mostrar o estágio real dele.
A equipe de apoio
Provavelmente construída na própria Patagônia, ao longo da preparação. É o desafio humano dessa prova.
Treinador, nutricionista esportivo e fisioterapeuta
Acompanhando a carga com foco em prevenção, e agora com um novo fator para gerir: a exposição ao frio.
Estrutura financeira
A inscrição são 975 dólares, mais 28 de seguro obrigatório, mais 1.000 de doação se eu for pela inscrição direta. E isso antes da passagem até Balmaceda, do aluguel de carro obrigatório, da hospedagem em Coyhaique, tudo multiplicado pelo tamanho da equipe. É a prova mais cara das três, com folga.
Cada uma dessas peças vai aparecer aqui, com os números e as decisões expostos ao longo do caminho.
Três desafios, um só propósito
Existe uma pergunta médica sem resposta sobre o meu pé na água gelada, existe uma equipe que eu ainda preciso construir do outro lado do mundo, e existe uma conta que é a maior das três. Qualquer uma dessas coisas pode adiar ou encerrar esse desafio.
O que eu sei é o que eu já vi acontecer.
Eu tinha um laudo médico em mãos. Ele dizia perda severa de movimento, prognóstico ruim, muletas permanentes. Aquele documento estava tecnicamente correto sobre o estado do meu pé. Três meses depois eu larguei a primeira muleta. Aos seis meses, a segunda. Aos doze, terminei 42 quilômetros de montanha.
Nada daquilo estava previsto no papel, e nada daquilo veio de uma capacidade especial que eu tenha e você não tenha.
O limite que quase me venceu não estava no tornozelo. Estava na possibilidade de eu ler aquele laudo, aceitar cada linha dele como sentença definitiva, e organizar o resto da minha vida em volta daquilo. Todo mundo tem um documento desses guardado em algum lugar, e nem sempre ele é médico. Às vezes é financeiro, às vezes é uma frase que alguém falou pra você quando você era criança e que você carrega até hoje sem nunca ter conferido se ela é verdadeira.
A água gelada, a Carretera Austral, os 42 quilômetros de cascalho, tudo isso é o instrumento que eu tenho na mão. Deus está no centro disso, e o esporte é a ferramenta que Ele me deu para mostrar às pessoas a capacidade que Ele já colocou dentro delas.
No fim do mundo, à beira de um lago glacial, ou aqui numa manhã de terça sem ninguém olhando, é o mesmo propósito.
Três desafios, um só propósito.